16 Feb 2026 A economia do Brasil vai bem, mas os povos da Amazônia pagam alto preço
Edilberto Francisco Moura Sena
De repente a Amazônia se torna o centro do mundo por receber a COP30 em Belém, que se torna simbolicamente a capita do país. Alguns milhões de reais foram gastos para enfeitar a casa, mesmo que a periferia da capital de 1.3 milhões de moradores continue na pobreza sem saneamento básico.
Aqui é onde está a maior floresta tropical do planeta, mas nas 29 cops anteriores pouco foi realizado e vivemos hoje uma crise climática que se aproxima de catástrofe. Outro fato que justifica esta cop 30 acontecer na Amazônia, é que aqui está a maior floresta tropical do planeta e floresta é um dos principais filtros da poluição envenenada que está desestabilizando a convivência entre humanos e natureza. Para muitos, como eu, há um ceticismo quanto aos resultados da COP30 que possam frear a destruição do planeta.
Minha expectativa está fora da chamada linha azul da Cop onde só estão os chefes de Estado e seus assessores; fora da linha azul estão os vários movimentos sociais organizados em três grupos mais resistentes, a Cúpula dos Povos, a COP do Povo e a Associação dos povos indígenas do Brasil, APIB. Com a união das várias organizações da sociedade civil nacional e internacional, é que pode surgir pressão suficiente para as soluções da crise climática saiam das boas intenções para práticas estratégicas.
Por que parece tão difícil para o Estado brasileiro tomar decisões que venham ao menos salvar a Amazônia para ajudar a salvar o planeta? Já que a Amazônia, além de ter a maior floresta tropical do planeta, possui também, uma imensa rede de bacias hidrográficas, tendo como raiz o maior rio do planeta, o Amazonas e cerca de 30 milhões demoradores aqui vivendo. Há alguns motivos para esse ceticismo sobre a COP30.
Primeiro, o Brasil, hoje décima economia mais potente do planeta, constrói essa riqueza dentro da visão colonialista de busca de desenvolvimento. A ideologia do desenvolvimentismo, que divide o mundo ente norte e sul, onde os países do sul são estimulados a seguir um caminho de crescimento para um dia chegar a ser desenvolvido. Assim, o Brasil ainda é um país subdesenvolvido, comparado com Canadá, Inglaterra e outros do Norte.
Iludido por essa ideologia do norte global, para alcançar o estágio sonhado de país desenvolvido, nossos governantes investem na economia extrativista predadora. Por exemplo, o financiamento do governo para a safra agrícola para 2025/26 é de 625 bilhões de reais (5,35 bilhões de dólares) para o agronegócio e apenas 78 bilhões de reais (14,79 bilhões de dólares) para agricultura familiar. Isto porque para sustentar a economia do país, a exportação de produtos primários, soja, milho, carnes, etc, para o mercado internacional, justifica para o governo a disparidade de apoio, mesmo sabendo que a agricultura familiar é que abastece as mesas dos brasileiros.
E aí voltamos para o resultado da COP 30 na Amazônia. Ao mesmo tempo que nosso governo tenta fazer algo positivo em defesa do clima, como propor o grande projeto TFFF Tropical forest forever facility, é contestado por ser um projeto que depende muito da “generosidade” dos outros países, além de depender de fundos de investimento, que farão negócio rentável com investimento na conservação de florestas alheias no sul do mundo. Outros se perguntam qual a diferença do TFFF do Crédito de carbono? Ainda mais que os recursos do fundo florestam para sempre serão administrados pelo Banco mundial.
Outro aspecto que nos deixa descrente do sucesso de mais uma COP em defesa do clima
Pouco antes da Cop em Belém, o governo federal forçou o Instituto Brasileiro de meio ambiente e recursos naturais renováveis (IBAMA) a liberar a exploração de petróleo no mar na foz do rio Amazonas. Este é outro projeto contraditório na sua essência, por ampliar exploração do maior gerador de CO2 na natureza, o petróleo. Poucos meses antes da cop30 o Ibama foi levado a aprovar teste de exploração de petróleo no mar próximo a foz do rio Amazonas. A afirmação do presidente Lula de que seria necessário explorar petróleo na costa do Estado do Amapá, para com o rendimento do petróleo cuidar do meio ambiente, revela exatamente a mentalidade subdesenvolvida de querer avançar no desenvolvimento, explorando a natureza.
Nós do Movimento Tapajós Vivo MTV, somos parte da resistência em busca de outro mundo alternativo. Como também nossa Rede de Notícias da Amazônia RNA, buscamos o caminho do Bem viver, herança de nossos ancestrais. Há 18 anos tanto o MTV como a RNA, vêm se juntando a outros movimentos de resistência a essa ideologia desenvolvimentista.
Primeiro, o Movimento Tapajós Vivo vem construindo uma estratégia de enfrentar os projetos que buscam renda e lucro, à custa da natureza. Tanto a exploração predatória de ouro nos garimpos e minerações na região do rio Tapajós, quanto explorar o rio tapajós como objeto de renda capitalista. Enquanto o governo federal planejava construir sete grandes hidroelétricas ao longo do rio Tapajós, um absurdo projeto violentador do grande rio tapajós com a desculpa de gerar energia limpa, o que era mentira. A resistência do povo munduruku e de nossos movimentos sociais conseguimos arquivar o desastrado projeto.
Vencemos aquela batalha, mas chegaram outras. Mais recente, com a rodovia Br 163 ligando o centro da plantação de grãos, soja e milho no Estado do Mato Grosso até o rio Tapajós aqui na cidade vizinha de Itaituba, abriu-se mais fonte de enriquecimento dos exportadores do agronegócio. Já foi construído um imenso porto graneleiro em frente a cidade de Santarém pela multinacional CARGILL, e nos últimos 10 anos, as empresas exportadoras de grãos decidiram com silêncio do Estado brasileiro, construir sete grandes portos em frente a cidade de Itaituba, para de lá enviar em comboios de barcaças lotadas de grãos via rio Tapajós, rumo aos portos oceânicos para o mercado internacional.
Assim para os exportadores de grãos ficou mais econômico e mais lucro, se apossando do belo rio Tapajós. Pode imaginar sete empresas cada uma com seus comboios de barcaças empurradas por um rebocador, cada comboio com cerca de 200 metros de comprido e setenta meros de largura dominando o trajeto do rio, sem respeitar pescadores, barcos de passageiros, e moradores ribeirinhos. Tudo em nome do progresso e da economia nacional? Como a COP30 vai enfrentar o capital que usa e abusa do território amazônico?
O Movimento popular MTV junto com movimentos indígenas e outros movimentos de resistência, temos militado na resistência, utilizamos uma escola de pedagogia formadora de consciência, seguindo a metologia do grande mestre Paulo Freire, na tentativa de despertar consciências dos lutadores sociais que mais sofrem com essa invasão colonialista. Juntamos a prática de pressão sobre os poderes públicos e a escola de formação de consciência crítica de outros lutadores sociais da região.
Ao mesmo tempo militamos com outra estratégia comunicacional, a Rede de Notícias da Amazônia, RNA utilizando a comunicação como instrumento de partilha das lutas sociais e denúncia das agressões ao meio ambiente. Há 18 anos construímos coletivamente uma forma de gerar informações da Amazônia, para a Amazônia, a partir dos lutadores sociais, espalhados por sete dos nove Estados da região.
A RNA é uma associação de 20 emissoras de rádio comprometidas com descolonizar a informação. Para isso, os diretores das emissoras sócias construíram um manual de comunicação, onde ficaram definidos: a geração dos conteúdos, a linguagem respeitando as culturas distintas nas várias regiões da Amazônia, procurando gerar notícias das lutas, pressões sofridas pelos lutadores/as das áreas das emissoras sócias e denunciando as agressões ao meio ambiente. Portanto a RNA não transmite notícias geradas pela internet, nem por emissoras do Sul, ou Nordeste do país.
Além de um noticiário de 30 minutos de segunda a sexta feira, concluído por um editorial específico, a RNA oferece uma rádio revista de 30 minutos uma vez por semana. Ambos os programas são transmitidos por todas as 20 emissoras. De acordo com nossos cálculos provisórios, por falta de uma pesquisa de audiência mais completa, mas levando em conta o alcance de cada uma das 20 emissoras sócias espalhadas por sete Estados da região, imaginamos ser possível que cerca de 3 milhões de moradores da Amazônia escutam notícias ou ouvem a rádio revista da RNA, ao menos uma vez por semana. Isto para nós militantes da Rede de Notícias da Amazônia é motivo de alegria e motivação para continuar essa luta.
Conclusão
Realizar comunicação na Amazônia é um grande desafio, especialmente gerar informações que respeitem os direitos dos lutadores sociais e da mãe natureza, que também é sujeito de direitos. Mesmo assim estamos presentes comprometidos em juntar a prática de resistência pelos movimentos populares, como tentamos pelo Movimento Tapajós Vivo; e cultivando um modelo de comunicação com incidência nas vidas dos lutadores sociais da grande e desafiadora Amazônia. Nossa revolução em andamento não pretende mudar o sistema capitalista isolados, mas nos juntamos a outros movimentos da sociedade civil para incidir na arena em disputa pelo direito de viver de outro modo que não o sistema capitalista explorador.
Edilberto Francisco Moura Sena é membro da Rede de Notícias da Amazônia (RNA) e do Movimento popular socioambientalista Movimentos Tapajós Vivo.
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